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Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

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Voltemos ao baú para contar-vos mais uma bela e marcante aparição minha.
Sempre fui moça recatada e tive poucos namorados. Tirando o Tói não mais namorei alentejanos (como é possível?). Então que, já mulherzinha, encantei um moço de Cascais que estudava em Beja. Num belo verão, estava eu acampada em Monte Gordo (claro), o moço quis que fosse à sua casa de férias conhecer os pais dele. Ó porra! Tive de dizer que sim, lógico.

Saí da praia mais cedo, tentei esticar um vestido azul e branco às riscas ao máximo e até lavei os ténis para parecer no mínimo apresentável e não calhandrona como muitas vezes critica a minha mãe. 

Acontece que antes de sair do parque de campismo deu-me a fome. Agarrei-me a uma lata de atum e, claro, que, sem querer,  derramei o óleo do atum pelas pernas abaixo. Não tinha tempo de trocar os ténis, acho que nem tinha outro calçado, e tentei disfarçar as nódoas ao máximo.

Chegada à casa dos 'sogros', que me receberam simpaticamente, estávamos nós naquela converseta de «ah, é alentejana, de Beja, ele fala muito de si... bla bla bla», diz a senhora: «Tenho de ir despejar o lixo. Cheira tanto a atum!»

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Quem já 'perdeu' o filhos no shopping, sabe do que falo: do pânico que é achar que nos levaram o nosso mais precioso bem. Por mais que achemos que temos 40 olhos em cima deles...conseguem sempre fintar-nos. Tinha a Caetana quatro aninhos quando fomos almoçar ao Shopping dos Olivais, sitio que frequentamos com regularidade. Eu estava sentada nas mesas de refeição, o pai estava a pagar poucos metros à frente, ela andava a fazer 'piscinas' entre um e outro.

A Caetana? Entáo, não estava aqui contigo? Não, pensei que tivesse ido ter contigo.

E foi assim. De repente a miúda desapareceu.

Comecei a gritar como uma doida, todos os amigos nos ajudaram, houve quem fosse atrás dos balcões das lojas à procura da minha esguifa. Outros procuraram nas escadas rolantes e eu até fui ao MacDonalds, que o fascínio deles por aqueles bonecos é um exagero.

Foram os dez minutos mais longos e agonizantes da minha vida. Claro que fui à casa de banho ver se lá estava, gritei por ela...nada!

De repente aparece a boa da Caetana, como se nada fosse, com aquela cara de reguila com a saia aos pés.

Onde estavas Caetana? «Fui fazer cocó...», respondeu-me com ar cândido.
Ouviu-me procurá-la, não me disse nada e como ainda não chegava com os pés ao chão, não a vi quando espreitei por debaixo das portas.

Até se me parou o sangue!

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 Há alturas em que lamento profundamente agir mais rápido que falar ou pensar! Partilho esta história para penitenciar-me (a minha mãe vai chamar-me tudo). Então, a minha Caetana, uma menina linda, enérgica, esgroviada como a mãe, sempre deitou sangue do nariz muito facilmente. Agora sei que é melhor puxar o sangue, assoar e baixar a cabeça em vez de a levantar. Antes tinha a ideia de que devia lavar o nariz, inclusive, com soro fisiológico. Garrafinha que tinha na casa de banho ou lado de uma outra, igualzinha, mas com lixívia -disseram-me que devia coloca-la nas unhas para evitar os fungos do ginásio. Já estão a ver o que aconteceu, certo? Numa das vezes em que a Caetana me apareceu ao pé com sangue até ao queixo, dei-lhe a lixívia em vez do soro. Parece que ainda a estou a ver a tentar respirar, tal o ardor, e a abanar as mãos (desde pequenina que quando chora dá às asas)! Fiquei para morrer! Também, verdade se diga, só pôs umas gotinhas nariz abaixo...Ainda assim, irresponsabilidade minha!!!

Merecia verdascadas no lombo. Desculpa filha!

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Era uma gaiata! Andava a brincar com a minha irmã Isabelinha no terraço do prédio, enquanto a minha mãe estendia roupa. Como ficar sossegadinha foi condição que nunca me assistiu, lembramo-nos de jogar ao apanha. Acontece que o espaço não era muito grande e a correria, estava-se mesmo a ver, não ia acabar bem. Até que se me deparou um dilema: ou perdia para a minha irmã e ela apanhava-me ou ia em frente e espetava-me na quina da parede. Lógico que decidi estampar-me! A porrada foi tão grande ou tão pequena que logo comecei a espirrar sangue da testa. Lembro-me de ir ao colo da minha mãe até ao hospital, a pé, que até morava pertinho. A Gertrudes tinha uma blusa rosa e quando me entregou aos médicos estava encarnada de ensopada. Recordo-me de ser cosida a sangue frio. Tenho a nitída ideia de me colocarem um plástico verde a tapar-me a cara mas ainda vi a agulha e a linha. Quem também viu foi o belo do pai Bicho que até queria ser apoio mas não teve grande estômago. Lembro-me de ouvir dizer-lhe: sente-se homem que você ainda desmaia. Não pode ver agulhas! Ainda hoje. O Bicho fica verde! E sabem que mais? Adoro cicatrizes! Bem podia ter entrado pela parede dentro para ficar com marca mais saliente...

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Há lá ideia mais espatafúrdia que esta? A minha mocidade em Beja devia estar a ser tão monótona que achei que tinha de ter alguma atividade extra, já que estava proibida de fazer desporto (devido aquela minha moenga de nascença/ osso do fémur mal encaixado). De que me lembrei eu? Juntar-me à Capricho Bejense - a banda filarmonica da terra. Não é preciso conhecer-me para aí além para logo se perceber que era perfeito disparate...

Mas embirrei que sim senhora e ainda andei naquelas primeiras aulas em que nos ensinam a pauta e as notas básicas e batemos com a mãozinha para marcar o ritmo. Chegada a altura de escolher instrumento decide-me pelo clarinete. Pareceu-me maneirinho! Triste ilusão! Eu lá tinha pulmão para aquilo! Acho que o belo do clarinete ainda deve ter ficado lá por casa uma semaninha. Recordo-me que foi a primeira vez que tive de, sozinha, sem a companhia dos pais, assumir a minha responsabilidade, comunicar que queria sair e pedir desculpa pelo tempo desperdiçado comigo!

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Por Dios! Até me benzo só de pensar que a minha Caetana pode ainda ter ideias mais luminosas que as minhas! Nesta minha aventura de recordar as minhas peripécias/estupidezes/inconsequências (burra que nem uma chapa de zinco), apercebo-me agora que as galhetas que os meus pais me deram foram muito poucas.

Ao lembrar-me da minha adolescência, na companhia da minha tal amiga Ana, duas tontas a quererem crescer rápido demais, tempos houve em que achava que ficar bebêda era o máximo. Como não tínhamos dinheiro, nem recebíamos mesada- que em Beja fazia todas as refeições em casa e só gastava moedas em sugus - arranjamos forma  de apanhar pielas baratas. Va lá que acho que não repetimos a estupidez muitas vezes: chegamos a beber álcool etilico com sumo de laranja, já que não tínhamos acesso a gin.

Por Dios! Ao menos devo ter ficado bem desinfetadinha....

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 Eu gostava tanto de ter uma memória igual à das pessoas que entrevisto, que se lembram das datas todas, do dia dos jogos de futebol, dos marcadores e minutos de golos... Eu tenho a certeza que um destes dias  acordo e não me lembro qual é a minha graça (nome, entenda-se, que da outra sei ter pouca!!!)

Isto porque quero falar-vos de uma excursão que fiz no liceu (ou seria ainda nos tempos da C+S?), e já nem mesmo sei onde foi! Sei que ficamos hospedados num convento: raparigas no piso superior e rapazes no inferior. Claro que, já naquele tempo elas eram piores que eles, e enquanto falavamos sobre espiritos (há uma fase em que todos nos lembramos dessa maravilha de tema) tivemos a brilhante ideia de ir ter com os rapazes ao andar de baixo. Pensamos nós, e bem, que se fossemos apanhadas pelas freiras ou professoras tínhamos de ter uma desculpa convincente. Achamos que uma ferida ou lesão seria plausível. Ou seja, alguém tinha de se aleijar. Quem? Aqui a monga. Bati com as costas, de propósito, numa daquelas camas que têm os pés enormes e altos. E fiz uma ferida, sim. Lembro-me que tinha mais medo de ser apanhada do que dores no lombo. 'Atão' não era tão estúpida???!!!

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Ora cá está outra aventura que o jornalismo me proporcionou! Não me vou esquecer!  Andar de balão. Partimos do Algarve. De um estádio. Juntei-me a um grupo de outros jornalistas, fomos divididos e lá me calhou um balão bem colorido. Entrar para o cesto até foi fácil. Ainda que tivesse o estômago colado às costas, naturalmente! Lá iniciamos viagem. Começamos a subir. O balão que ia à minha frente ficou enleado no poste da luz do estádio e veio por aí abaixo. Pensei:« já estás! A ti vai acontecer-te pior». Mas não. Continuamos a flutuar pelos céus. É uma sensação maravilhosa: uma paz, um silêncio, uma calma.... Não se ouve nada. É como se tivessemos, de facto, ido para o céu. Naqueles momentos não dá para pensar em nada. Apenas para desfrutar daqueles minutos de puro encontro com nós próprios. Mas tivemos de começar a descer. Vai ser suave, achava, já muito zen! O catano - é que aquilo não tem mesmo trem de aterragem! Começamos a perder altitude e o cesto começou a embater no chão, aos saltos. Batia, subia, batia, subia... até que no derradeiro sopro foi-se arrastando pelo chão aos trambolhões! Não foi simpático: meteu terra, pedras, urtigas...Mas valeu muito a pena!

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Outra situação embaraçosa ao serviço de A BOLA . Já nem me lembro quando foi. E até me custa partilha-la porque o protagonista já não está entre nós. Fui destacada para fazer reportagem acerca de uma exposição de robótica - outro tema que sempre dominei (estou a brincar e a falar como as gentes de Corte Gafo que dizem tudo ao contrário). Lá fui tentar descortinar a graça da cena (aquilo é para gente muito inteligente, qualidade com a qual Deus Nosso Senhor não me abençoou por aí além). Até que me disseram que o Ministro estaria a chegar. Pensei, estou safa - faço umas perguntitas ao Ministro e siga a banda. Assim fiz. Esperei, fui olhando para os robotszinhos, abanava a cabeça como que a dizer que era tudo espetáculo, até que chegou o governante. Falei com o assessor e pedi-lhe para roubar cinco minutinhos ao senhor. Ele acedeu. Acontece que quando chegou ao pé de mim, o senhor engasgou-se! Começou a tossir e a pedir: «água, água, água». Foi confrangedor. Já não mais o vi. E já nem sei que raio escrevi eu sobre a mostra para inteligentes. 

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É incrível como o nosso disco rígido guarda coisas fúteis e esquece outras bem mais importantes! Não é o caso do que aqui vou contar que sempre me recordarei enquanto todos os dias acordar ramelosa. A minha primeira saída pelo jornal A BOLA. Imagine-se: campeonato de motonáutica em Portimão. Ora, da modalidade percebia tanto como de astrofisica, ou de costura! Lá fui eu, nervosa, sem saber como me desenrascar, sem saber com quem havia de falar, nem percebia quem estava a ganhar!
Sabia que o reporter de imagem do Algarve ia lá ter comigo - Vidigal, pai! Um personagem!!!
Até que entramos numa tenda onde estava servido um almoço volante. Eu estava tão encavacadinha de estar ali que mal me aproximei da mesa. Quando finalmente o fiz e peguei numa coxinha de frango (naquele tempo não tinha aversão a fritos), o bom do Vidigal, para me ajudar a quebrar o gelo, começou a gritar da outra ponta da tenda: «então, não paras de comer? Já aviaste isto tudo! Foi para isso que cá vieste? Queres levar o resto nos tupperwares?». Ficou tudo a olhar para mim. Quase tive vontade de me afogar. Que vergonhaço! Depois de melhor conhecer o Vidigal percebi que ele até foi meiguinho naquela altura. Um personagem!
Deus o tenha!