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Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

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 Vamos acelerar um bocadinho. Nem sei quantos Pais Nossos e Avés Marias rezei eu de olhos fechados, enfiada no carro de rali do Jari-Matti Latvala. Verdade! Uau! Mais uma reportagem em A BOLA. Primeiro, não sou amante de velocidades, muito menos num carro claustrofóbico com uma rede a tapar a janela - já vos disse que tenho pânico de espaços fechados???
Lá me fiz de forte e fui dar a voltinha com o filandês - trombudo, como só ele. Bem me metia com o conceituado piloto, em inglês, naturalmente, durante o passeio, pelo micro, mas o homem nem me voltava resposta. Sei que abria os olhos de vez em quando e via as árvores a virem na nossa direção.
Terminada a grande oportunidade, para mim um calvário, por fim, vi algo que me entusiasmou. É que o carro, como devem calcular estava castanho de tanta terra. Um dos operadores da box veio de lá com um borrifador e, amigos, o carro ficou a espelhar em segundos - lá fui eu a correr atrás do individuo:« ai amigo que produto é esse que me dava um jeitaço lá nos vidros de casa?» Só eu para me encantar neste pormenor - barraca!
Mas o Latvala não se ficou a rir. É que o finlandês decidiu despir-se atrás de um autocarro que se pôs em marcha. Nós, jornalistas, já estavamos no nosso bus para ir embora. Fiz questão de bater no vidro, apontar para ele - branquelas, branquelas em boxers - e largar-me a rir!

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 Passaram-se meses na Suécia. Ao contrário de quando lá cheguei, os últimos tempos em Sundsvall foram sempre de sol. Nunca chegava a ser noite. Apenas lusco fusco. Para estudar, em tempo de exames, não era lá muito bom... Mas voltemos às rambóias! A alegria dos suecos quando chega o dia em que não há noite é tanta que costumam ir para a floresta gritar. Pensei: aqui é tudo janado! Mas não é que aquilo sabe bem? Superlibertador. Comecei a ouvi-los a puxar pelos pulmões, aquilo fazia eco, e olhem...era cá uma desgarrada! Soltei também a minha tensão acumulada e enrouqueci como se não houvesse amanhã.

Prática dois: qual o pitéu do dia da libertação? O chamado ...- já não me lembro o nome daquilo em sueco - sei que é peixe que fica enterrado na terra de um ano para o outro. Podre, portanto.

Fiquei a olhar para eles a comer aquilo, deitava cá um cheirinho...acho que até provei, já não me lembro. Conversa para cá, conversa para lá e lá disse que sentia saudades de um belo prato de caracoís.
«Caracóis, caracoís? Daqueles da rua???», perguntavam-me atónitos. «Sim, esses, gordos, caracoletas também...» Ficaram tão enojados que nunca mais conseguiram olhar-me da mesma maneira. Ora, porra, eles comem peixe podre....

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 A Suécia é, de facto, um país e tanto! E lá que sabem receber, não há como negar.
Eu é que sempre fui esta peça inacabada...enfim! Depois de ter recusado o passeio a cavalo e depois de ter dado estrilho a descer pelas grutas de mar congelado, o terceiro dia de receção aos estudantes Erasmus contemplava esqui! Os outros adoraram! Eu nunca sequer tinha feito o chamado sku.
Estamos a falar da Suécia...imaginam a pista de esqui? Gigantesca, para profissionais. Lá tive eu de voltar a dizer que não me aventurava e os nossos anfitriões já olhavam para mim de lado, chamando-me desmancha prazeres. Também não podiam agradar-nos só com um mero piquenique? Catano...
Pois, que lá foram os restantes estudantes estrangeiros todos artilhados montanha acima para esquiar. Eu fiquei numa colinazita, ao lado da estância, que tinha neve às camadas, a jogar frisbee com uma miúda que me perguntou, de forma gestual, logicamente, se lhe fazia companhia. Mas a miúda era rija com aquilo. A ponto de ter atirado o maldito disco uns bons metros para longe. Lá fui eu, no meio daquela brancura fofa. Mas quando me agachei para apanhar o disco senti um grande, mas mesmo grande, bafo de calor. Voltei-me bem devagarinho. Era uma rena!!! Com ar tão amoroso! Parecia estar a sorrir para mim ou a desafiar-me para jogar também. Já congelada, recongelei de medo. Apanhei o frisbee e ela ficou ali, até com ar meio murcho, a ver-me ir embora. Foi dos momentos mais ternurentos que já vivi (pela minha santa saúde que isto é tudo verdade).

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 Continuemos nos meus tempos de Suécia e naquela semana de boas-vindas aos estudantes Erasmus, sete dias que se revelaram para mim de enorme terror. Depois de ter falhado o passeio a cavalo pelos bosques frondosos, levaram-nos a visitar uma grutas que só no pico do Inverno se formam. Uma zona congelada de mar que desenha espirais lindas, colunas de água sólida, caprichos da natureza que só pensei ver em livros. Bem, não é que lhes tenha prestado muita atenção...
Já contei que tenho problemas com sitios fechados - como acham que me senti quando percebi que ia descer por uma corda, com apoio de bombeiros, por um buraco abaixo, entrar mar congelado dentro e passear-me por ali até terem vontade de me mandar embora? Irra! Mas já tinha ficado fechada no estábulo com medo do pónei e achei não podia fazer nova desfeita.
Cravejadinha de medo lá desci. Aquilo era lindo - parecíamos Alices no País das Maravilhas a entrar pelo espelho.
Pior é quando começo a olhar em volta e a não conseguir ver saídas. O pânico apodera-se de mim, começa a dar-me a travadinha e a tampa acabou por saltar-me quando, no meio daquele chão escorregadio, começo a ver pegadas. Perguntei o que era. O dito bombeiro - acho eu que era bombeiro, tinha farda, sei lá de onde era o homem - olhou para mim, com a testa muito franzida, e respondeu: «são pegadas de lince!»

Oabre...ainda hoje estou para perceber como saí dali. Agarrei-me à corda sozinha e nem precisei que me empurrassem o befe, que naquela altura até era bem mais generoso e proeminente, para chegar à superficie.Nesse dia apanhei -22 graus. Não sentia o nariz, nem queixo, nem boca...e o que fez a inteligente da Elsa quando chegou ao hotel? Meteu-se debaixo de água a ferver - doeu horrores!

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Estive na Suécia, no último ano de curso, a fazer Erasmus (se fosse hoje não me metia no avião).
Até hoje ainda não percebi se foram os melhores, se os piores tempos da minha vida. Mas quando tento lembrar-me de algumas situações à Elsa Marina, a verdade é que alguns embaraços assaltam-me a memória.

Pois que fui para uma universidade em Sundsvall, na mesma latitude que o Alasca e o Norte da Sibéria. Inverno rigoroso, sempre de noite... Saía de casa de manhã e tinha de abrir caminho com neve pela cintura (nunca eu tinha visto neve no Alentejo e levei logo com montes dela...camadas...paletes).

A Universidade aguardava, impacientemente, pelos estudantes estrangeiros, a tal ponto que organizou toda uma semana de boas-vindas, cheia de atividades e passeios para mostrar o melhor do país e da região.

Ora bolas. Passeio número um: cavalos. Agora imaginem um bosque daqueles frondosos, à filme, com árvores gigantescas a delinearem gigantescos penhascos cobertos de neve e gelo. O resto do grupo era constituído por belgas, franceses...mais do que habituados aquelas práticas. Eu nunca sequer tinha andado a cavalo. Aliás, nunca andei (a mula Gabriela do Jardim Público de Beja não conta, certo?)

Ora, comecei logo a ficar para trás. Lá expliquei que estava cheia de medo, que não queria participar daquele filme à Frozen, ainda que me chamasse Elsa, mas os suecos insistiam e ainda me foram buscar um pónei cheio de pêlos e crinas já que os cavalos impunham muito mais respeito. Mas o bichano não engraçou comigo. Dava coices para trás, voltava a cabeça e fugia de cada vez que tentava fazê-lo de banco. Resultado: fiquei duas horas fechada num estábulo enquanto os outros foram ver as maravilhas naturais da Suécia profunda, com medo de sair dali não fossem aparecer-me outros seres manhosos, ficando ali, prostrada e indefesa, à mercê do pónei mau feitio.

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Começo a aperceber-me que os meus pais sofreram um bocadinho comigo...E já mulher feita continuei a fazer das minhas. Quando fui para o jornal A BOLA, comecei por integrar a redação do BOLA 7, um espetáculo de suplemento que saía ao domingo com o jornal, espaço para outras modalidades pouco promovidas na imprensa, páginas com um grafismo superatraente. Fui destacada para fazer reportagem sobre pesca do tubarão. Lá fui eu para o Algarve, sendo das primeiras a entrar para o barco. Sim que de avião só ando se me partirem uma tábua de cerejeira na mona mas para barcos estou sempre pronta. Os colegas de outros órgãos de Comunicação Social todos enjoaram. Tomaram comprimidos e acabaram por adormecer. Eu fiquei bem amiga dos pescadores. Lá estava eu na proa a ver os peixes quase saltarem para dentro da embarcação. Tubarões nem vê-los mas atuns...são lindos ao sair da água, espelhados e de cores mil. Como não vi nenhum dentuça dos maus, o capitão do barco deu-me uma cabeça de tubarão embalsemada. Fui para Beja e pensei - que faço eu com isto? Tanto pensei que me esqueci da prenda.
Voltei para Lisboa. Em conversa ao telemóvel com a Gertrudes, queixava-se ela: «ai Noca, que estamos aqui com uma trabalheira...cheira tão mal, não sabemos de onde vem o cheiro do vosso quarto. Já dei volta a tudo, não encontro nada». E eu continuei sem me lembrar do tubarão. Até que me ligou outra vez em pânico: «mas que bichesgo é aquele, Noca?» - e ela então que é medricas com todos os seres que Deus Nosso Senhor pôs no mundo. ..Então, embalsemado, lá pensei que apodrecia? Bah....

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Tempos houve em que me envergonhava de contar isto. Agora, estou por tudo (é verdade...os 40 anos tornaram-me assim- digo tudo o que me apetece). Esta é um clássico, como me recordou o meu amigo Rui Assunção ( e eu até nem me lembrava desta minha inconsequência).
Lá volto eu aos tempos loucos da Pandora (mentira, que até éramos tão bem comportadinhas). Importa referir que, em tempos muito idos, o meu pai todos os domingos ia à pesca. Sábado, antes de deitar-se, fazia o seu engodo para usar como isco. Tinha a paciência de cozer batatas, fazia um género de puré e misturava minhocas e outros bichos para atraiar os peixinhos.
Numa bela noite fui à Pandora - sabádos à noite era fatal como o destino. 
Cheguei de madrugada, como era meu apanágio, mas vinha esganada de fome. Como não tinha jantado em casa - nesse tempo era também ritual mamarmos os bifinhos com natas do Alhinho-, entrei pela cozinha e reparei no belo do tacho. Lá me lembrei do engodo ... pensei que fosse o resto da janta e emborquei com o suposto puré. Domingo à hora de almoço, a pescaria não tinha corrido bem ao Bicho...não tivera engodo! Só depois me apercebi bem do que tinha comido... mas até o suposto puré me tinha sabido a noz moscada!
E as minhocas devem ter muita proteína...não?

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Ainda me lembro quando abriu a Biblioteca José Saramago, em Beja. Era linda (ainda é), com umas escadas de madeira no interior que nos conduziam ao bar e a uma ampla sala onde podíamos ler revistas, ouvir CD's....A Biblioteca passou a ser ponto de encontro, local para dar à língua, mais que para o estudo! Tarde houve em que lá fiquei a fazer tempo - já nem sei para quê mas recordo-me que, graças a Deus, estava sozinha. Sempre tive o péssimo hábito de falar sozinha (dizem que é faculdade de pessoas inteligentes!). Abro a boca e invento diálogos que gostava que acontecessem, ensaio conversas...sei lá., monga. Pergunto e dou as respostas, sozinha! A minha mãe sempre disse que fazia mutetos (a Gertrudes inventa palavras).
Ora, quando me vinha embora, a fazer os meus 'mutetos', entretida com os meus pensamentos que deviam ser jeitosos, encalhei em mim própria na primeira escadinha da longa escadaria exterior bem visível na foto. Meus amigos, pela saúde da minha Caetana que vim rebolando até à estrada! Mesmo tipo filme - escada por escada, a bater com o befe em todos os degraus. Sei que só parei na estrada - sim o embalo foi tal que depois das escadas ainda me arrastei pelo passeio. Tenho a imagem fixa de estar deitada de costas na estrada, levantar a cabeça e ver o edifício ao contrário! Logicamente que, o que mais me importou, foi perceber se alguém me tinha visto naquela triste figura. Só depois me preocupei se vinha algum carro... Se fosse hoje não me livrava de ir parar ao You Tube. Por Dios!!!!

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Sou uma triste! Uma pacóvia mesmo. Conheço muito pouco deste nosso sedutor Portugal.
Para fora não viajo porque sou altamante claustrofóbica e só de pensar em meter-me num avião dá-me logo um fanico. Viajar para fora cá dentro...pois que até gostava. Eu mal conheço o Porto - só conheço o Estádio do Dragão (que visitei em trabalho pela A BOLA) e o shopping lá ao lado.
Mas já tentei, tentei sim, conhecer a baixa, a Foz...
Já vos contei que sou fraca de rins, ? Acreditam que cada vez que chego ao Porto tenho uma pielonefrite (crises de rins)? Só eu para ter, recorrentemente, um achaque com nome de bebedeira...
Da primeira vez, comecei com umas dores tais que acabei por passar a madrugada no Hospital de Santo António. Da segunda vez,  foi igualzinho...
O bom do Zé Luís tinha arranjado um hotel todo fino, planeado grande passeio....mói-te!
Assim que passei a ponte- ai ai ai, ai ai ai...Ainda fui para o hotel mas tive um febrão que só delirava. Santo António com ela outra vez - outra madrugada sozinha, que nem deixaram o homem ficar comigo pelos  corredores, sem sequer poder beber água enquanto não saíssem os resultados dos exames. Diagnóstico: pielonefrite! Lá saí, já de manhãzinha, e ainda tive de levar uma injeção que só encontrei numa farmácia ao lado do Estádio do Boavista. Só me lembro de chorar (com dores) a olhar para a Pantera. 

Aceitam-se convites para superar o enguiço com a Invicta!

Mas só a quem subscrever o blog.....Ah! Ah!Ah!

 

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 Já vos disse que não como gelados há anos, muito menos batatas fritas, certo? Isto para vincar que todos os meus interiores estão em ótimo estado de conservação, caso me aconteça algum percalço que já não me permita continuar a escrever aqui...Avante.
Os únicos órgãos mais imprestáveis são mesmo os rins. Mais um azar da adolescência.
'Atão' que sempre tive sono muito agitado. Em Beja, dormia no mesmo quarto da minha irmã Isabelinha, com as camas lado a lado separadas por uma mesinha de cabeceira. Uma bela noite, a estroina chegou da Pandora (já vos falei da discoteca da minha terra de mil e um encantos) bem mais tarde que a hora marcada pelo Bicho. Vinha a Isabelinha a entrar em casa, pé ante pé, a fechar a porta à chave sem fazer barulho quando......BOOOOOMMMMM. Os meus pais acordaram e entraram de rompante no quarto. Estava eu caída debaixo da cama...da minha irmã. Chorava, chorava e não me conseguia levantar. Lá fui eu de charola para o hospital outra vez. Exames e mais exames, resultado, com a queda fiz um traumatismo renal - ainda me lembro do carinhoso do médico: «sabes quando vais ao restaurante, pedes um bife mal passado e quando lhe pões o garfo em cima escorre sangue por baixo? É assim que está o teu rim (nada como boas imagens visuais)»-
Ou seja, com a minha gritaria e infortúnio, só no dia a seguir é que os meus pais se aperceberam que a minha irmã, aquela hora, estava vestida e acabadinha de entrar em casa!

P.S 1 - Já agora dizer-vos que o meu pai bem nos tramou - tínhamos um filho da mãe de um pai Natal de pelúcia que, ao detetar movimento, desatava a cantar : «Santa Claus is coming to town, Hi, Ha....» - Isto de madrugada, ao entrar em casa, depois da Pandora, mandava o prédio abaixo...

P. S 2 - Já subscreveram o meu blog???

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