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Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

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Um destes dias cheguei a casa com o tifo, como diz a minha Gertrudes. Angustiada, pensativa, receosa, macambúzia. Coisas cá da vidinha que nos moem, moem, moem...Estava eu a sentir pena de mim própria quando fui buscar a Caetana à escola.
Mas depressa percebi que há chatices e imbróglios tão piores que os meus: «Passo-me mamã, passo-me! O Zé Pedro só me dá beijos com força. Digo para parar, ele nada. Ando sempre atrás de mim e depois com aquela brutidade, aleija-me. E sabes que mais? O sossegadinho do Asael, de quem tu gostas tanto? Roubou-me a mochila e quando lha pedi atirou-a ao ar. Se tivesse vidro partia-se tudo! E ainda me roubou o lápis e quando mo devolveu foi sem o shopkin que eu lá tinha. Passo-me! Para mais, a Vânia, tu não acreditas, mas está sempre a dizer-me que só lhe apetece dar-me chapadas. Hoje ela e a Carolina estavam contra mim. Estavamos a fazer uma história, eu não me lembrava das personagens, perguntei-lhes e elas não me quiseram dizer só para me fazerem sentir mal!»
Ufa.
«Mamã, como foi o teu dia?», perguntou-me. «Foi top filha. Foi espetáculo....»

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Devo ter uma cara muito comum, o chamado rosto standard. Não imaginam a quantidade de vezes que me dizem que me conhecem de algum lado, que sou parecida com esta ou com aquela mulher, que me perguntam se tenho família aqui ou ali. Muitas vezes as comparações até são abonatórias para a minha pessoa, outras deixam-me a pensar se de facto estou a encarquilhar muito mal ou se, por acaso, até me estão a reconhecer de algum lado e sou eu que não me recordo das pessoas, das situações ou passagens da minha vida (o que também é perfeitamente passível de acontecer na minha pessoa).
A conversa é sempre a mesma. Lá fico a negar que seja quem aparento ser...
Bem, vez houve em que pequei e espetei uma linda mentira, daquelas piedosas, a um senhor de alguma idade que me confundiu com a presidente da Câmara Municipal da Amadora.
O bendito velhote estava preocupado com o arruamento em frente a sua casa. Atão ia preocupar o homenzinho? Diz que 'eu' lhe tinha prometido obras urgentes e «até agora nada». Ainda lhe disse que me estava a confundir mas o amigo não quis saber.
Então, alinhei na dele: «Oiça, não estou esquecida. Há tanto para fazer nesta terra. A sua rua está sinalizada para intervençáo prioritária. Tem de dar-nos algum tempinho que tudo leva o seu tempo», confirmei-lhe. E ele ficou todo contente. Atão, fiz mal? A autarca pode é perder um voto...

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Será possível? Nem ao domingo consigo dormir mais um bocadinho? E não....não é (só) pela Caetana! Já vos contei que no sitio para onde fui morar (perto do Vale Grande, fiquei a saber, junto a muitos quintais) há um energúmeno dum galo com os horários trocados que canta como se não houvesse amanhã a meio da madrugada e a partir das 9 horas da manhã cala-se. E como se não bastasse o estropício do galo, agora é o sino da Igreja! E toca, toca, toca....foi um regabofe. Até acordou o cabrão do galo. E acordou a Caetana! E acordou o pior em mim que fiquei com uma embirrância daquelas! Saí eu de Beja, vim para A da Beja (a minha freguesia é outra mas aquela zona antigamente era A da Beja) para sentir-me na província? Agora que a minha melhor disposição começa a voltar, pensando bem, até gosto e até tem a sua graça! Soubesse o que sei hoje não tinha deixado o Alentejo (se calhar até tinha!) - estou um bocado baralhada!
Vou dormir!

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Sempre fui muito dura de ouvido! Mouca, mouca....mais mouca que uma chapa de zinco (como dizem em Moura)! Cristo! As minhas amigas, todas elas se queixam do mesmo- ninguém consegue bichanar comigo (ironia né?) Não vale a pena dizerem-me coisas em surdina que eu não percebo nada. Muito menos consigo ler lábios. Têm de falar alto e de forma percetível. «Chiça, Elsa, só dás barraca....», oiço constantemente.
«Olha ali aquela gaja que....»
«Aquela gaja o quê?», grito eu, denunciando toda a operação.
Então dizerem-me o célebre clássico: «não olhes agora mas....», comigo, nem adianta que a primeira coisa que faço é logo fitar os meus grandes olhos castanhos em quem não deveria perceber que estava a  ser cortada na casaca.
Enfim. O ruído comunicacional (ironia, né?) é um perigo na minha pessoa.
Estavamos nós na quadrilhice na Zumba (coisa que até nem aprecio -estar na quadrilhice ih ih, ih, ih - ) e contavam-me uma história de um casal que se separou e que o referido ex já tinha outra relação com uma mulher a quem, inclusive, tinha dado um...ringue!
«Um ringue?»
«Sim já está com outra e até já lhe deu um, apesar de a conhecer há pouco tempo.»
«Um ringue?»
Aquilo não me fazia sentido mas há gente para tudo, certo? Imaginei que tivessem grande casa e que o ringue fizesse parte da decoração. Aliás, outro dia fui a um restaurante mexicano (imagine-se) no LX Factory que tinha, verdadeiramente, um ringue no meio.
Pensei - querem ver que os ringues estão na moda? Podia ser, ou não?
Conversa para cá, futrico para lá e eu insistia....«mas um ringue!»
«...R&R%%-SE , Elsa - um RIM!»
Ah - deu-lhe um rim! Já me pareceu mais plausível.
Isto para perceberem o quanto o meu quotidiano vive de conversas estapafúrdias à boleia de ser dura de ouvido. E acreditem que já fiz exames auditivos - dentro de uma caixinha tipo telefónica, com auscultadores na mona a fazerem-me perguntas sobre se ouvia os barulhinhos. E disseram-me, inclusive, que estava tudo bem!!!
A saúde deste País está na rua da amargura....
Pelo sim, pelo não ...vou comprar uns cotonetes!

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Coisa 'má' linda este tempo outonal com as folhas caídas das árvores a dançarem em funil! Eu gosto. Paisagem maravilhosa. Acredito que a beleza já passe bem ao lado dos desgraçados (há vidas piores) que têm por incumbência apanha-las da via pública.
Isto porque ia eu na minha vidinha quando se me deparou diálogo algo inusitado. Dois funcionários camarários apanhavam as benditas folhas com aquelas máquinas que parecem metralhadoras suguentas. VUUUUUUUUUUUUU.....O barulhão é infernal.
«Olha, eu já jlaSHGsabdaebgkb?»
«Hã?»
«No outro dia....nkkl hjkhdhsgd
E Vuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...
«Não te percebo, pá!»
«Lembras-te?  Nós......hjhsdakdhsdkhg!» 
Vuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...
Atão
não saberiam pensar que a máquina não deixava ouvir nada?
Fiquei à coca a ver se percebia alguma coisinha. Mas nem eu, nem o recetor da mensagem conseguia apanhar népia, deixando já o outro homenzinho falar sozinho, rindo-se da sua figura e de quem o observava, fazendo montinho com a folhagem castanha avermelhada. Vem uma senhora com aqueles carrinhos de compras com rodinhas e esfrangalha as folhas todas. O olhar dos moços nem precisava de legenda e a máquina suguenta também teve destino, em pensamento....

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Ainda me deu para rir. Mas houve quem não achasse graça.
Estava eu na Loja do Cidadão - sim, porque isto de mudar de casa, cancelar contratos de um lado, abri-los de outro, filas e filas para chegar a nossa vez e estar no lugar errado- dá azo a mamar um frasco de valeriana e nem assim. Então que tenho de alterar a residência do cartão de cidadão, certo? Eis-me no IRN com 20 pessoas à minha frente (como hei-de deixar de mascar pastilhas? Não dá...) Respirei fundo e sentei-me confortavelmente, entregando-me ao meu passatempo favorito: observar as pessoas e tentar imaginar como serão as suas vidas, o que farão, que segredos esconderão....
Havia casais com bebés em carrinhos, senhoras de cadeiras de rodas, miúdos a correr - e gritar, por Dios -, de um lado para o outro até que chega uma mãe, daquelas cheia de filhos pendurados na saia, senhora que se fazia notar pelo seu vozeirão e meiguice: «Pára quieto que levas uma chapada.» «Queres ver que tenho de me ir a ti?» «Paras sossegado ou levas na tromba?»
E assim se passava a tarde com os restantes paizinhos a acariciarem os seus filhotes, como que a dizerem: «anda cá amor que a mãe não te trata assim!»
O relógio parecia não andar e o placard das senhas, esse não mexia há muito tempo!
Um dos filhotes da dita cuja senhora, começou a brincar com uma outra miudinha que decidira limpar o chão com a roupa (como todos gostam!). Vem de lá a mãe gritona e põe tudo em sentido: «Que estás a fazer? Não te disse já para não tocares em ninguém que estás com varicela?»
Não se ouviu um ai! Agora das duas-três: se foi estratégia para passar à frente funcionou que muitas foram as pessoas a sair da sala com miúdos pela mão. Se era verdade, sorte a da criança que não tinha nem uma borbulhinha....

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Cá ando eu com a minha saga de voltar a montar a minha vida e a minha nova residência. Hoje foi dia de esperar pelo técnico da NOS para me voltar a ligar a boxe e aquelas moengas todas que agora são necessárias que uma pessoa sem televisão parece que entrou pela sanita abaixo e foi parar ao mundo obscuro.
Uma simpatia de rapaz que me fez assinar a mudança de aparelhos, como é da praxe. Atão mas que é feito dos papelinhos onde as canetas deixam marca? Agora é uma tanga digital, também, onde é suposto assinar com o dedo!
Valha-me Deus! Poderia ter o meu nome ou o da Madre Teresa de Calcutá que não se ficou a perceber nadinha. Tentei com as unhas - ficou um borrão! Com a cabeça do dedo: nem uma letra... «Vamos tentar com a caneta», pediu. Mas a borrachinha da dita cuja só desenhava névoas. Tanta modernice é o que dá. Nem uma assinatura legível se consegue hoje em dia. E depois aquelas perguntas e aquele olhar do indíviduo para mim como que a pensar: esta tipa esteve a hibernar: Há quanto tempo tem contrato? Sei lá! Onde está o cabo XPTO? Não era você que deveria saber? Quando mudou a boxe? Ah...já tinha mudado? Atão não têm registos amigos? Se estão à espera da minha memória bem podem voltar à máquina de escrever!

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Já vos contei que o ginásio é a minha terapia, certo? Fico piurça se não consigo ir suar as estopinhas. Então agora que o João Pinto se lesionou - ninguém merece ficar sem o João Pinto -, tenho de deambular pelos vários ginásios Hut à procura de aulas que me desafiem. O Spinning é uma das minhas eleitas. Bicicletas paradas a simular retas, montanhas e sprints. À hora de almoço os lugares são concorridos.
Hoje fiquei 'entalada', salvo seja, entre dois amigos de proeminente composição fisica.
Tipo sardinhas em lata lá pedalamos durante uma hora. Mas a vizinhança só me fazia rir:
O homem a respirar parecia um camião TIR a parar: bupffffffffffffffff... Alto e bom som.
Só aquilo já me fazia rir mas o bafo que mandava ao expirar - só me lembrava da minha amiga Célia Lourenço e da Filipa Reis, duas distintas maganas que não suportam cheiros e hálitos. E quando o da direita bufava, o da esquerda guinchava ... ainhe, ainhe, ainhe!
O esforço tem muito que se lhe diga. Cada um esfria conforme lhe apetece mas eu já não conseguia pedalar, nem rir, nem barafustar, nem respirar, diga-se!
Terminada a aula diz-me o camião TIR: «Cuidado ao sair, não escorregue que o chão está muito molhado!»  «Pudera,» pensei eu! «Mas hoje até foi calminho!», acrescentou o individuo. Olha que grande desplante: nem imagino o que seja uma aula puxada para aquele colchão de pêlo!

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 Não viveria com o susto! Tinha sido cá um cagaço! Abençoada alminha!
Nem sei de quem falo, apenas sei tratar-se de uma miúda simpática que não esteve para me espetar um piripaque.
Num destes dias dirigi-me para o meu carro no Estádio Nacional, estando o meu bólide estacionado naquela parte da mata, debaixo das árvores. Lá vinha eu, toda lampeira, carregada que nem uma mula (como ando sempre), trazendo pendurada a minha malinha (tamanho XXL), mais a mochila do computador, outro casaco na mão e chapéu de chuva (sombrinha como se diz em bom alentejano - agora cá escrever o correto..)
Já com os botins todos enlameados- porque as poças e os charcos vêm todos ter comigo-, percebi que não conseguia puxar das chaves do carro. Ainda tentei mas tudo me caía dos ombros abaixo. Então, não estive com meias medidas: despejei tudo em cima do capot do carro que estava parado ao lado: sombrinha, mochila, computador, casaco, abri a mala, saquei carteiras, cadernos, canetas, frascos e frasquinhos, batons, comprimidos e todas as minhoquices que trago comigo. Lá encontrei as benditas chaves, lá arrumei tudo à pressa e entrei, a custo, para dentro do carro. Assim que acendo as luzes, olho para o lado, e não é que a rapariga estava sentada ao volante assistindo à forma como fazia do capot dela meu tapete?
Larguei-me a rir, pedi desculpa com as mãos e acelerei dali para fora não fosse a bendita criatura dizer-me alguma coisa. Atão, o que é que querem - não vi a rapariga dentro do carro com aquele breu...
Se me tivesse buzinado ou acendido as luzes no meio do processo...tinha apanhado o cagaço da minha vida. Agradecida miúda!

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EU! 
E é tão fácil. Às vezes gostava mesmo de ser uma daquelas mulheres sem qualquer defeito, cheias de virtudes, prendadas, que fazem tudo bem, ótimas mulheres, profissionais e donas de casa que conseguem desempenhar milhentas funções em simultâneo todas com muito brio e perfeição.
Eu assumo que estou a anos luz de tal perfil. E quanto mais tento, mais estrago.
Um destes dias fui ver o futebol. Consegui estar perto do relvado e fazer companhia ao speaker que se entretinha a passar música ambiente e a preparar-se para locução debaixo de chuva copiosa. Os fios nadavam pelo chão, havia água nas extensões, tomadas e mesa de mistura. Um perigo, uma boa tanga...
O jogo estava quase a começar. Farta de ter a minha mochilinha às costas - sim que só uso pochettes (brinco - ando sempre com malões onde quase caibo eu dentro) - joguei a bela da mochilorra com força para o chão. De repente, o estádio silenciou-se. Nem música, nem som estridente, nem feedback...toda a gente a olhar! Que se passa? O speaker movimentava os botões do som mas o silêncio perdurava.
UPS! «Ó Elsa importas-te de tirar a mochila de cima do botão principal?»
Aish ! Está certo. Peço imensa desculpa....