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Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

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Já vou a meio da terceira semana de isolamento e o meu relógio biológico continua a ser o meu maior inimigo.
O mais irritante, mesquinho, incómodo, implicante e insuportável acontecimento da presente quarentena.
Com tantas e intermináveis horas durante o dia porque raios me levanto às oito da matina? Ninguém merece! Ontem foi ainda pior. Ouviram a chuvada? Por Dios! Que dilúvio. Escusado será dizer que acordei com aquele pranto da natureza e não mais consegui pegar no sono.
Ali fico na cama a dar voltas e voltas, a pensar em quando tudo isto vai acabar, a meditar nas cenas mais estranhas e improváveis da vida, a tentar olear o cérebro que por estes dias já nem para mioleira no tacho servia (ou a mioleira cozinha-se em frigideiras? Estão a ver: só já concebo interrogações estúpidas).
Acabei por levantar-me que não suporto as dores de corpo. Sinto-me como se tivesse sido abalaroada, passada e repassada, por uma betoneira tantas as dores musculares de não fazer nenhum (parece contraditório, certo?)
Fui ver chover. Descobri, pois, que consigo ficar em pausa. Julgava ser impossível!
Ali fiquei, estarrecida, à janela, tempo e tempo sem pensar em nada,  apenas olhando a praceta de frente, tipo estátua de cera. Embalsemada! Tanto se queixavam que eu não me calava, que estava ligada à corrente, que parecia uma bichanina... Quero ver quem agora me acorda para a vida depois do vírus se afogar.

Espero que o #$$## da $%ta tenha ido na enxurrada, que tenha ficado com as antenas escorridas, com a cor rosinha descolorada e que aquela barriga de balão se tenha implodido por todos os orifícios que doam. 

Tal não é a moenga!

Cuidem-se!

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1 de abril. Dia das mentiras. Prometem?
Isto também é tudo mentira, não é?
Foi só um pesadelo terrível, bem pior que aqueles que costumam fazer-me acordar aos berros - ou porque sonho que me caem os dentes, ou que ando despida na rua, que piso dejetos de boi, bem pior que as minhas muitas noites agitadas cada vez que, no meu sono,  me enfio por poços abaixo.
É que se fosse verdade, este era o mais terrível dos pesadelos: ficar sem ver os meus pais, minha irmã, cunhado e sobrinhos, sem ver os meus amigos, sem poder pegar no carro e esbarra-lo logo nos pilares da garagem...Sem poder chegar ao ginásio e tentar esconder uma meia de cada cor ou esquecer-me das cuecas no saco e assim ter de regressar algo desconfortável mas arejada... Sem poder escrever na 'minha esplanada' ao sol onde sempre fico com os pés cheios de formigas e apanho valentes cagaços quando se aproximam galinhas (e os cabrões dos patos?)
Seria pesadelo não poder beber café no sitio onde já me chamam pelo nome, entorna-lo em cima do senhor da mesa ao lado e continuar a ler os jornais que já me guardam na banca. Seria muito mau não poder ir buscar a Caetana à escola e ficar a 'namorar' nas grades com os seus amiguinhos que sempre dizem achar-me muito fixe e bonita (ai a inocência das crianças...)
Seria muito mau não poder ir ver as minhas tias ao lar no final das suas vidas e dizer-lhes que cá deixam descendente no que respeita a dizer pantominices (a minha tia Tinda é o hino ao humor).
Seria muito mau. Não pode ser verdade. Hoje é dia das mentiras.
Prometem?

Tal não é a moenga...

Cuidem-se!

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Muito bom! Tenho tanto orgulho de ser alentejana. Que povo com capacidade de rir de si próprio, que gente para encarar adversidades com uma anedota, de enfrentar tristezas com uma modinha (uma canção, entendem?)
Esta imagem e este slogan do 'alentejana-te' são deliciosos. E o hastag #quétosporra é simplesmente divinal. 
A mensagem é forte e apela para que todos nos aquietemos em casa enquanto o cabrão do bicho não se esvai. Raios partam os bichos que só nos dão fezes - esta expressão é talvez das mais feias do nosso dialeto mas que a usamos ... usamos!

Como sabem, saí cedo da terrinha e sempre fui um bocadinho acelerada de mais para condizer com o protótipo alentejano - acelerada a falar, a ser... Para mais não como enchidos, bebo pouco vinho tinto (acho que é por isso que sou tão desmiolada, acuso bem a falta), e desisti do pão que me faz pneus.
De alentejana conservo a alma e agora também me alentejanei (que remédio). Mas isto do isolamento social é contra a minha natureza: o corpo fica dormente, a língua presa...
Ontem pensei que estava a ter uma sulispanta: arrepios, frios, tremores, descontrolo total.
Fui ver  - fechei as janelas que já chovia!
Mais essa m$##da!
Tal não é a moenga!

Sério que este mês tem 31 dias? Catano!

Cuidem-se!

 

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Que faço eu agora? Como!
Que faço eu daqui a 15 minutos? Como!
Que fazem o frigorífico e a dispensa que sempre esbarram comigo?
Há coisas que não têm remédio. Não vale a pena lutarmos contra guerras perdidas. A comida ganha! É forte, poderosa, saborosa, sempre à mão de semear. Dançam-nos à frente dos olhos coisas para trincar, alimentos encantam-nos qual serpentes eretas dentro de cestos. Por mais que queiramos portar-nos bem e que pensemos que, presentemente, é um filme irmos às compras, a despensa ri-se de nós porque nem damos luta para aquecer. Vá lá que ainda resisto aos processados e doces (como vocês bem sabem). Mas beterrabas são às dúzias. E vocês ainda fazem bolinhos, tartes, quiches e cenas de forno...Ontem sonhei com um banquete: estava em Beja, a minha Gertrudes tinha feito sopa de entulho - chama-lhe assim porque leva todas as verduras e couves que possam imaginar. Nem tinha tomado o pequeno almoço para ter fome para todo o tacho (sempre fui tão brutinha, graças a Deus).
As saudades apertam e dava tudo para entregar-me a todos aqueles talos alentejanos (isto não soa bem, pois não?).
Vou mas é comer mais uma beterrabazinha - aquilo deita líquido vermelho por todo o lado (para filmes de terror era sugestão bem saudável para gravar cenas de morte) e a boa da minha Caetana apanha sempre o mesmo cagaço : «mamã, já cortaste os dedos outra vez?» - algo sempre passível de acontecer comigo na cozinha!

Tal não é a moenga!

Cuidem-se!