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Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

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Eu até nem queria contar mais peripécias do meu Bicho, mas ele desafiou-me e eu não me fico. É que há tantas....O meu pai tem um termo característico quando se aleija - «Bolas!» Nunca nos foi permitido dizer asneiras - abria-nos logo os olhos cá de um modo...e o Bolas sempre foi a sua forma muito própria de praguejar. Não poucas vezes morde a língua e a boca, por dentro, de lado. E lá sai um Bolas musicalizado com um cerrar de dentes, género tr tr tr tr tr tr.
Um belo dia, conta ele que ninguém viu, o Francisco Bicho ia na portas de Mértola - centro de Beja sem trânsito - e, como anda sempre em campanha (ou seja a cumprimentar tudo e todos), distraído, arrancou um lanho da cabeça ao chocar com um sinal de prioridade numa esquina. «Bolas, foi cá uma fuerada!», conta. Mas graça, graça acho mesmo ao imaginar que, nas mesmas Portas de Mértola, o Chico Bicho levou uma «castanha» daquelas motoretas antigas que têm uma caixa atrás. Conta o meu pai que ele ia na sua vidinha, e as portas da caixa traseira da motoreta abriram-se no exato momento em que ele ia a passar, 'atropelando-lhe' um braço. «E o homem nem parou. Nem reparou. Bolas! Tr tr tr tr tr tr»:
Bates-me aos pontos pai!

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Já vos disse que tenho dois sobrinhos lindos de morrer? Posso parecer suspeita, logicamente, mas os dois têm olhos claros, lindos, desenhados, bonitos nas horas - não sei a quem saem....Nunca publiquei fotos deles porque os pais não gostam e há que respeitar (até já lhes disse que fazia bom dinheiro com os putos, que punha-os já aí a fazer anúncios e desfiles e campanhas e tudo e tudo...)
São dois espinafretes de magros - um come este mundo e o outro, o mais velho sobrevive de ar...Atão que a Gertrudes fez cabidela. O trafulha pequeno começou logo a perguntar à avó pelas patas....irra que aquilo fez-me uma confusão! Eu detesto aves, tudo o que tenha bico e aquelas patas horrendas tira-me o sono de noite. Não é que aqueles dois índios se agarraram às patas da galinha e sugaram aquilo com a maior das vontades, como se fosse o mais delicioso repasto? Foi a única maneira de os manter sossegados durante meia horinha! O que é recorde! Experimentem mamãs desesperadas: patas de galinha para os putos se lambuzarem! É o céu! Quem diria...

 

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Ora cá ando eu a digladiar-me com o carro!  Ó karma....Agora foi um senhor mais entradote que me levou a dianteira (e eu que ainda pensava ter sido eu a culpada - haja alguma coisa que não seja a Elsa Marina a ter  de pedir desculpa). Agora é marcar peritagem, ficar sem veículo, andar a pedir boleias, ficar dependente até para ir às compras...argh! Lembrei-me logo quando em Beja, recém encartada (e mal) tentei curvar para rua bem estreitinha. Quem é de Beja sabe do que estou a falar: aquelas travessas brancas e apertadinhas perto do nosso Castelo. Eu e a minha banheira, na altura...o Astra! Claro que me armei em campeã, não tirei bem as medidas (ainda hoje é talento do qual sou desprovida) e raspei o carrinho todo pela parede branca da nossa zona histórica. E depois? Nem para trás nem para a frente. Quem havia de surgir para ajudar-me?
Um frade, daqueles típicos, de túnica castanha e corda à cintura. «Venha, venha...agora para trás, agora para frente, chegue mais...» E fazia ainda pior. Quanto mais me instruía mais eu tirava cal da casa de esquina. Ficou mossa na parede (peço desculpa- cá está - à câmara municipal ou ao proprietário lesado há 20 anos - já perscreveu, certo?) e mossa no belo do Astra do qual não me devia ter desfeito.  Outros tempos! Impressionante como há coisas que nunca mudam!

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Ora cá está um belo miminho de pai. Quando chegas aos 41 e o teu pai te publica esta bela mensagem na cronologia percebes que de facto a genética é lixada. Sempre fui muito bem criada e feliz, ainda que nunca fôssemos de grandes lamechices lá em casa.
Quando miúdas os outros pais punham as filhas nos píncaros. Os meus muitas vezes só apontavam as nossas falhas. Não esqueço quando fiz história no liceu ao tirar o único 19 com o professor de história mais bera do estabelecimento. Corri para a loja do meu Bicho com o teste na mão: «pai, pai tive 19 a história!»
«Não fizeste mais que a tua obrigação!», respondeu-me, cortando-me logo as vasas. Até me vieram as lágrimas aos olhos. Mas sei que depois foi para o Clube da Pesca contar que a «sua mais nova» tinha tirado grande nota. Ter estado no jornal A BOLA foi para ele grande vaidade. Quando ia a Beja e encontrava alguém, logo dizia o meu Bicho: «esta está em Lisboa. Está na BOLA!»

Agora que conto as larachas da minha vida nesta forma digital e que por fim me descobre os podres e carecas, achincalha-me desta forma jeitosa publicamente. Atão, pai, sabes que mais?
Lembras-te de todo o prejuízo que te dei durante toda a vida com as dezenas de tranquitanas que te parti na loja atafulhada de coisas? Nem soubeste nem de metade....A Tóia (funcionária) encobria-me. Partia candeeeiros, biblots, pratos e canecas, ela embrulhava tudo em papel e ia logo deitar ao lixo. As contas que fizeste à minha falta de jeito estão muito por baixo....Não havia dia que não fizesse estrago ao chocar com a mochila nos teus pertences da Louça dos Compadres. E agora? Já não me podes por de castigo! Toma!

Ih ih ih ih ih !!!!!! (riso à Mutley!)

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Voltemos ao baú para contar-vos mais uma bela e marcante aparição minha.
Sempre fui moça recatada e tive poucos namorados. Tirando o Tói não mais namorei alentejanos (como é possível?). Então que, já mulherzinha, encantei um moço de Cascais que estudava em Beja. Num belo verão, estava eu acampada em Monte Gordo (claro), o moço quis que fosse à sua casa de férias conhecer os pais dele. Ó porra! Tive de dizer que sim, lógico.

Saí da praia mais cedo, tentei esticar um vestido azul e branco às riscas ao máximo e até lavei os ténis para parecer no mínimo apresentável e não calhandrona como muitas vezes critica a minha mãe. 

Acontece que antes de sair do parque de campismo deu-me a fome. Agarrei-me a uma lata de atum e, claro, que, sem querer,  derramei o óleo do atum pelas pernas abaixo. Não tinha tempo de trocar os ténis, acho que nem tinha outro calçado, e tentei disfarçar as nódoas ao máximo.

Chegada à casa dos 'sogros', que me receberam simpaticamente, estávamos nós naquela converseta de «ah, é alentejana, de Beja, ele fala muito de si... bla bla bla», diz a senhora: «Tenho de ir despejar o lixo. Cheira tanto a atum!»

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Era uma gaiata! Andava a brincar com a minha irmã Isabelinha no terraço do prédio, enquanto a minha mãe estendia roupa. Como ficar sossegadinha foi condição que nunca me assistiu, lembramo-nos de jogar ao apanha. Acontece que o espaço não era muito grande e a correria, estava-se mesmo a ver, não ia acabar bem. Até que se me deparou um dilema: ou perdia para a minha irmã e ela apanhava-me ou ia em frente e espetava-me na quina da parede. Lógico que decidi estampar-me! A porrada foi tão grande ou tão pequena que logo comecei a espirrar sangue da testa. Lembro-me de ir ao colo da minha mãe até ao hospital, a pé, que até morava pertinho. A Gertrudes tinha uma blusa rosa e quando me entregou aos médicos estava encarnada de ensopada. Recordo-me de ser cosida a sangue frio. Tenho a nitída ideia de me colocarem um plástico verde a tapar-me a cara mas ainda vi a agulha e a linha. Quem também viu foi o belo do pai Bicho que até queria ser apoio mas não teve grande estômago. Lembro-me de ouvir dizer-lhe: sente-se homem que você ainda desmaia. Não pode ver agulhas! Ainda hoje. O Bicho fica verde! E sabem que mais? Adoro cicatrizes! Bem podia ter entrado pela parede dentro para ficar com marca mais saliente...

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Há lá ideia mais espatafúrdia que esta? A minha mocidade em Beja devia estar a ser tão monótona que achei que tinha de ter alguma atividade extra, já que estava proibida de fazer desporto (devido aquela minha moenga de nascença/ osso do fémur mal encaixado). De que me lembrei eu? Juntar-me à Capricho Bejense - a banda filarmonica da terra. Não é preciso conhecer-me para aí além para logo se perceber que era perfeito disparate...

Mas embirrei que sim senhora e ainda andei naquelas primeiras aulas em que nos ensinam a pauta e as notas básicas e batemos com a mãozinha para marcar o ritmo. Chegada a altura de escolher instrumento decide-me pelo clarinete. Pareceu-me maneirinho! Triste ilusão! Eu lá tinha pulmão para aquilo! Acho que o belo do clarinete ainda deve ter ficado lá por casa uma semaninha. Recordo-me que foi a primeira vez que tive de, sozinha, sem a companhia dos pais, assumir a minha responsabilidade, comunicar que queria sair e pedir desculpa pelo tempo desperdiçado comigo!

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Por Dios! Até me benzo só de pensar que a minha Caetana pode ainda ter ideias mais luminosas que as minhas! Nesta minha aventura de recordar as minhas peripécias/estupidezes/inconsequências (burra que nem uma chapa de zinco), apercebo-me agora que as galhetas que os meus pais me deram foram muito poucas.

Ao lembrar-me da minha adolescência, na companhia da minha tal amiga Ana, duas tontas a quererem crescer rápido demais, tempos houve em que achava que ficar bebêda era o máximo. Como não tínhamos dinheiro, nem recebíamos mesada- que em Beja fazia todas as refeições em casa e só gastava moedas em sugus - arranjamos forma  de apanhar pielas baratas. Va lá que acho que não repetimos a estupidez muitas vezes: chegamos a beber álcool etilico com sumo de laranja, já que não tínhamos acesso a gin.

Por Dios! Ao menos devo ter ficado bem desinfetadinha....

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Ainda me lembro quando abriu a Biblioteca José Saramago, em Beja. Era linda (ainda é), com umas escadas de madeira no interior que nos conduziam ao bar e a uma ampla sala onde podíamos ler revistas, ouvir CD's....A Biblioteca passou a ser ponto de encontro, local para dar à língua, mais que para o estudo! Tarde houve em que lá fiquei a fazer tempo - já nem sei para quê mas recordo-me que, graças a Deus, estava sozinha. Sempre tive o péssimo hábito de falar sozinha (dizem que é faculdade de pessoas inteligentes!). Abro a boca e invento diálogos que gostava que acontecessem, ensaio conversas...sei lá., monga. Pergunto e dou as respostas, sozinha! A minha mãe sempre disse que fazia mutetos (a Gertrudes inventa palavras).
Ora, quando me vinha embora, a fazer os meus 'mutetos', entretida com os meus pensamentos que deviam ser jeitosos, encalhei em mim própria na primeira escadinha da longa escadaria exterior bem visível na foto. Meus amigos, pela saúde da minha Caetana que vim rebolando até à estrada! Mesmo tipo filme - escada por escada, a bater com o befe em todos os degraus. Sei que só parei na estrada - sim o embalo foi tal que depois das escadas ainda me arrastei pelo passeio. Tenho a imagem fixa de estar deitada de costas na estrada, levantar a cabeça e ver o edifício ao contrário! Logicamente que, o que mais me importou, foi perceber se alguém me tinha visto naquela triste figura. Só depois me preocupei se vinha algum carro... Se fosse hoje não me livrava de ir parar ao You Tube. Por Dios!!!!

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Já vos pedi para subscreverem este meu blog? É só escreverem o vosso mail na caixinha debaixo do meu rasgado sorriso...

Bem,chega de lamechice que o que aí vem pode afetar os mais sensíveis!
Voltemos aos meus tempos de liceu, em Beja. Chegada a altura do baile de finalistas a azáfama era grande e a excitação gigantesca. Claro que, como nunca consegui ficar a leste de um happening, uma bela tarde decidimos pensar na logística do evento. E para o que me ofereci eu? Ajudar três amigos a carregarem uma arca congeladora daquelas gigantescas, rectangulares, de restaurante.
Também já vos falei da minha amiga Ana, minha sombra da juventude que agora já nem me fala (ficou importante...)?
Pois que, armada em campeã, já com a arca em ombros, faltaram-nos as forças para levantarmos o pesado mamarracho que me caiu em cima de um dedo. Confesso que nem senti nada mas, quando olhei para a mão...era um rio de sangue. Desunhara-me! Ou seja, a arca arrancou-me uma unha que apenas ficou presa por umas pelitas. Chamaram os bombeiros (vejam bem o despautério-a verdade é que os vidros ficaram espirrados de sangue com os solavancos e a cabeça do dedo solta).
A minha ex grande amiga ficou encarregue de ir avisar o meu pai, cuja loja - Louça dos Compadres-ficava, e ainda fica, a escassos metros do liceu (já agora cheia de utilidades, taças desportivas, equipamentos para casa e decoração - digam ao Bicho que vão da minha parte). A dita companheira, Ana de seu nome, era só tato:

«Sr. Bicho, a Elsa teve um acidente. Tem de ter calma! Ela foi levada para o hospital na ambulância. Não sei da gravidade mas foi esmagada por uma arca...»
O bom do Bicho saiu a correr.
Quando chegou ao Hospital já eu vinha a sair, apenas com um penso no dedo:
«Tiraram-me vocês da loja para isto????»