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Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Bichanando

Onde uma jovem quarentona limpa o cotão que tem no cérebro!

Aquela hora em cima do palco, quando fazia teatro amador, deixava-me mais feliz do que quando comia açordas da Gertrudes e mergulhava uvas e figos no caldo de azeite, alho e coentros (nos tempos em que me permitia  pecados da gula).
A melhor recordação que guardo desses tempos foi a peça «Guerras de Alecrim e Mangerona», sátira social que contava a história de dois fidalgos falidos que tentavam engatar as sobrinhas de um rico senhor de olho em melhor posição social. Peça com nomes como Tibúrcio, Semicúpio (adoro nomes esquisitos!!!). Eu era a Fagundes, criada alcoviteira (pois claro!)
Sabia as deixas de trás para a frente. Numa bela exibição, fazia o meu amigo Jorge Carocinho um dos papéis principais - rapaz cómico na presença e no falar-, tudo deu barraca. E foi a melhor das nossas performances. Naquele dia o Jorge pôs tanto pó de talco na cabeça para fazer de velhote, tio das casadoiras raparigas, que cada vez que abanava a cabeça chovia pó branco por cima de tudo e de todos. E o Nuninho, Nuno Entradas de seu nome, fraca figura com voz e sorriso tamanho deste mundo e do outro, inventava falas: «pára lá de dar à cabeça que já não aguento essa caspa!»
Os adereços estavam sempre no mesmo sítio. Exceto naquele dia:
«Fagundes, traz o capote!».
E eu nunca mais aparecia.
«Fagundes o capote está atrás da porta».
E eu nada.
«Porra, Fagundes...deve estar debaixo dessa merda toda...»
Lá encontrei o dito adereço, passado uns cinco minutos em que o elenco teve de engonhar!
Entrei em palco a rir que nem uma perdida. O público percebeu... e adorou!
E riu tanto...E foi tão bom!!!!